Autora · Diario · Escolas

O que lembram os sinos que tocam…

Tocam os sinos da torre da igreja anunciando um novo dia. São oito horas da manhã.

Lá fora, na rua, já se sente o frenesim agitado dos carros que passam. As mulheres da fábrica já passaram também, tagarelando e trauteando a música da moda. O Sr. Domingos abre as portas da oficina e o Sr. Adriano acabou de estacionar a carrinha.

Do lado do quintal, ouço o avô Manel a dizer bom dia ao passaroco preto de bico amarelo que vive na gaiola, pendurada na parede do tanque, enquanto se prepara para a manhã de jardinagem. A avó da farinha já enche baldes de milho para as galinhas que, no galinheiro, fazem uma festa!

Ouço a porta da frente a bater. É a mamã que sai para o trabalho. O papá saiu há muito tempo.

Dou meia volta nos lençóis quentinhos e penso, feliz, posso dormir mais um bocadinho. Porém, num ápice, mal fecho os olhos e logo ouço as dez badaladas do sino da torre da igreja. Abro os olhos alvoroçada pois dez horas são o limite permitido para a minha preguiça de férias. Impensável seria arriscar ouvir as onze badaladas ainda entre lençóis. Se o toque das oito tem sabor a energia e o das dez, de tolerância, o das onze chama-se preguiça e desleixo, segundo as leis que regem a casa e instituídas pela avó.

As duas primeiras horas do meu dia de férias gasto-as, ou melhor, ocupo-as, como dizia a avó, nas tarefas domésticas fundamentais: arrumar o meu quarto e o dos avós, a casa de banho e mais algum pormenor que surgisse. Enfim, garantir que a ordem está estabelecida nos espaços privados da casa. De seguida, seguia-se ir à padaria da Tia Micas com a avó, e passando na casa da avó Lucília, e depois colocar a mesa para o almoço.

As badaladas do meio dia tinham o sabor de reunião e encontro. O encontro da família à mesa do almoço. Hora sagrada para todos. Às doze horas, a refeição tinha de estar na mesa. Se a avó estivesse bem disposta, podia até arriscar pedir para não comer sopa. Em criança, nunca gostei de sopa. Nunca me ensinaram a necessidade de consumir legumes. Antes me impunham a regra como se, o facto de não a comer, fizesse de mim uma pessoa insensível para com os que nada tinham. Portanto, comia por medo dos adultos e angústia pelos pobres. Todavia, se sentisse a mínima perturbação nos olhos da matriarca, nem me atrevia a demonstrar tal vontade.

Findo o almoço, íamos ao café e, já lá instalados, ouvia as treze badaladas, as quais tinham agora um sabor de descontração. Mas, o sinal das meias horas marcava o regresso a casa e um novo período de tarefas domésticas.

O som que ia do toque das duas e meia da tarde até às quadro e meia, era igual a uma melodia de música de criança. Esse tempo era meu e das minhas bonecas e, mais tarde, dos meus livros. Muitas vezes a avó dormitava nesse período, facto que me permitia escapulir até à loja da Teresa ou, no verão, deitar-me ao sol, no jardim, sonhando que estava na praia.

Ao toque das quatro e meia, despertava do meu sonho de menina. Reiniciava a jornada. Mais tarefas. A avó descia da sesta e era tempo de alimentar novamente as galinhas, recolher os ovos, regar as hortaliças. Entretanto, o avô chegava da sua caminhada e contava-nos as notícia frescas da terra e do jornal (de Notícias, sempre!), destacando inclusive quem estava no obituário.

As badaladas das cinco da tarde tinham o cheiro a cevada fresquinha a fumegar e pão crocante com tulicreme. O meu coração ouvia-as e enchia-se de ternura. Durante uma hora, o ritmo da casa era tranquilo novamente. Porém, o som das seis horas instalava em mim nova inquietação. Logo logo, a avó queria começar a fazer o jantar e eu tinha de estar por ali, para o que fosse preciso e, acima de tudo, para aprender a ser mulherzinha, embora eu não entendesse o que isso significava.

Com as sete e meia da tarde, voltava a sentir o aconchego da família. Era a hora de jantar e agora também estava o papá e a mamã. Nos dias bons participava nas conversas mas, nos outros, mantinha-me o mais discreta possível.

O toque do sino das nove da noite significava recolhimento. Na sala de estar, a avó e a mamã faziam crochet e o avô lia as notícias do jornal, e novamente, o obituário era referido. Eram as mesmas notícias que nos tinha relatado pela tarde mas que ele considerava importante repetir. Eu não entendia porque fazia aquilo mas percebia que esse momento lhe dava muito prazer.

O som das dez horas da noite chamavam o João pestana, o aconchego da cama e uma boa noite de sono. Se ouvisse o da meia noite era sinal de inquietação, de medo, de ansiedade… que não podia nunca ser demonstrada a ninguém. Aconchegava-me nos lençóis e rezava para abafar a angústia. Esta era das leis lá de casa mais difíceis de cumprir…

No dia seguinte, tudo se repetia.

O som melódico dos sinos da torre da igreja marcavam os meus estados de alma durante os dias. O repenicar alegre dos batizados e casamentos faziam-me sonhar mas o toque triste dos funerais deixava-me muito angustiada. Se não ouvia os sinos ficava desorientada. Sentia que me tinha perdido no tempo e, provavelmente, alguma tarefa tinha sido esquecida. E como eu gostava de me sentar na beira da janela do meu quarto a olhar a torre sineira, mesmo em frente, para ver os movimentos certos dos sinos que pareciam ser conduzidos por um maestro. Como me deliciava com o som alegre no dia da procissão do Sr. da Saúde.

Aos meus olhos de menina, os sinos da torre marcavam o ritmo da minha aldeia, determinavam os afazeres e os momentos de descanso. Era como que “o sino disse que é hora de…” e tudo acontecia. Quando ia à missa, olhava-os mais de pertinho na sua dança ritmada de quartos, meias e horas.

Ainda hoje, se passo perto de uma igreja e ouço o sino tocar, recordo os momentos que lhe estão associados na minha infância e reorganizo o meu dia.

Bem… tenho de pousar o lápis (continuo a escrever nas brancas folhas de papel a lápis antes de escrever no computador). Tocam as dozes badaladas na Sé de Viana e hoje vou almoçar a esta hora e recordar os velhos tempos.

 

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