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Essa coisa estranha que é LER

Sentir o cheiro das folhas de um livro, aquele barulhinho, “cres” quando temos de “f0rçar” uma página a virar, as palavras novas que encontramos e os novos mundos, as histórias de vida das personagens que nos levam a fazer o filme das suas vidas, eis o que nos pode proporcionar um momento de leitura.

Ao ler, podemos ser a personagem principal, vestir as suas roupas e sentir os seus amores ou imaginarmos um encontro no café com ela. O que lhe diríamos? Que conselhos lhe dávamos ou, melhor ainda, que nos diria ela?

Ao ler, encontramos palavras novas. Encontramos formas diferentes de expressar o que sentimos, de dizer o que pensamos em liberdade. Aprendemos palavras novas e, percebemos até, como se devem colocar as vírgulas e os pontos.

Quanto mais lemos, melhor saberemos escrever. Já dizia a minha professora de Português.

Ao ler, conhecemos novos mundos, novas cidades, novos lugares. Ficamos a saber mais sobre a cultura de um grupo ou de um povo e constatamos sempre o quão pouco sabemos sobre o nosso mundo. Cada autor, em cada livro, fornece-nos imensas informações que nos permitem ver mais além, ver com outros olhos, com outra sensibilidade.

Ao ler, abstraímos a nossa mente dos problemas do dia-a-dia, dos afazeres diários que nos sugam a Alma, a energia, a esperança e a criatividade. Sim, porque ao ler, estimulamos a nossa criatividade e imaginação. Só lendo “As cidades e as serras” do Eça de Queirós entendemos o antagonismo entre a civilização sofisticada parisiense e a rusticidade portuguesa de Oitocentos. No final do século XIX, Portugal mantinha-se agrário e decadente. Neste livro, Eça apresenta-nos dois cenários diferentes, Paris e Tormes. A unidade destes cenários é conseguida pela personagem principal, Jacinto, e os seus estados de Alma. O Jacinto rico, entusiasta da civilização e das novas tecnologias que acaba por descobrir o encanto da vida no campo.

Com Alexandre Herculano e o seu “Eurico, o presbítero“, o romance histórico por excelência, percebemos como findou o reino visigótico com a invasão muçulmana da Península Ibérica em 711. O facto de Herculano conhecer profundamente a História, fez com que o autor criasse uma lenda épica, tornando um soldado um super-herói.

Com “A família inglesa” de Júlio Dinis, voamos para o Porto do século XIX, um novo mundo que nascia na cidade e em que o autor acreditava profundamente. Um mundo em que o progresso era a palavra de ordem e a classe burguesa a responsável pelo empreendedorismo emergente.

Nas “Viagens na minha terra” do Garrett, encontramos não só o relato de uma viagem como também tomamos conhecimento de inúmeras citações literárias, filosóficas e históricas que nos impelem à reflexão.

No “Romance da raposa” de Aquilino Ribeiro encontramos um mundo de fantasia onde os animais conversam, argumentam, tecem estratégias. É a fábula por excelência.

“Amor de perdição” de Castelo Branco leva-nos ao encontro das loucuras cometidas em nome do amor, de um amor exacerbado levado às últimas consequências. E depois? Bem, depois temos a poesia de Pessoa e dos seus heterónimos, quatro mundos na alma de um só ser humano; o humanismo de Miguel Torga que, criado nas serras transmontanas, aprendeu o valor do Homem como criador de vida, com uma capacidade de moldar o meio e, como tal, o único ser digno de adoração.

Com a “Manhã submersa” de Vergílio Ferreira constatamos o ambiente ríspido e severo do seminário, a repressão da educação, a pobreza da terra e as desigualdades sociais da década de 50 do século passado. E a forma subtil como o autor introduz o tema dos abusos sexuais obriga-nos a uma reflexão profunda. Foi um livro marcante na minha juventude. Já reli várias vezes, em períodos diferentes da minha formação e da minha vida, e consigo sempre encontrar novos desafios à sua interpretação.

Atrevo-me a usar a expressão de Bernardim Ribeiro, “menina e moça me levaram de casa da minha mãe para muito longe” em jeito de comparação, relativamente ao quão longe nos podem levar os livros.

Destaco ainda as gargalhadas estridentes que dei com as sátiras de Gil Vicente, pai do teatro português, e a perplexidade que senti perante o estilo único da Agustina Bessa-Luis em “A Sibila“.

E de Saramago que dizer? Nobel da literatura em 1998, foi o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Destaco o “Memorial do convento” que retrata o início do reinado de D. João V e a construção do Palácio Nacional de Mafra em resultado de uma promessa do rei para garantir a sua sucessão. É dos melhores cruzamentos entre a história ficção e a História.

E de Sofia de Mello Breyner Andressen, a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante prémio literário, o Prémio Camões, com uma escrita onde se percebe a constante busca de justiça, numa tomada de consciência do mundo em que vivemos.  Cito: “Esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio / e livres habitamos a substância do tempo” (…). Quem não gosta destas palavras? Quem lhes resiste? Se elas marcam a Alma de cada português que desejou (e deseja) a Liberdade. É impossível não gostar. Penso eu…

A tumultuosidade da vida de Florbela Espanca que lhe permitiu transformar um conjunto de emoções e interrogações numa poesia carregada de feminialidade e erotismo. E o que dizer de Camões que, com os “Lusíadas“, epopeia portuguesa de excelência, a todos deve orgulhar. E como desenvolvemos a imaginação ao lermos “História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar” ou “História de um gato e de um rato que se tornaram amigos” ou ainda “História do caracol que descobriu a importância da lentidão” de Luís Sepúlveda. Com ele desenvolvemos a imaginação mas também a esperança. Se o gato e o rato se tornaram amigos, se o gato ensinou a gaivota a voar e o caracol percebeu a importância de andar com calma, talvez os Humanos ainda estejam a tempo de serem verdadeiros Humanos. Assim acredito.

Encontrei em Alçada Baptista a importância das interações afetivas entre as pessoas, a importância dos pequenos quotidianos que nos remetem para os doces anos da infância. Destaco “Tia Suzana, meu amor” e “Catarina ou o Sabor da maça” como textos que me marcaram profundamente.

A imaginação ganha novo impulso com os livros de Isabel Stilwell. Claro que o facto de andarem associados à História lhes dá uma vantagem considerável para o meu coração bater mais forte.

Há um autor que gosto particularmente mas reconheço que nem todos os dias são dias de Irvin Yalam. “Quando Nietzsche chorou” foi o primeiro contacto com a sua obra. Neste livro, assistimos a uma fusão de realidade e ficção, para desvendar uma história sobre amor e o poder da amizade, assuntos tão falados mas tantas vezes não experienciados de verdade. Mergulhei logo de seguida na “Cura de Schopenhauer” onde a história verídica deste pensador alemão é envolvida na narrativa e assim temos uma verdadeira lição sobre a sua influência no pensamento contemporâneo.

Da italiana Susanna Tamaro, devorei quase compulsivamente os seus livros. Tudo começou com “Vai aonde te leva o coração“, uma espécie de diário intimo em que a protagonista fala de sentimentos sem cair em sentimentalismos. A vida de três mulheres e os condicionalismos das suas relações que nos levam a refletir sobre as nossas próprias relações dentro da família.

Com Laura Esquivel aprendi a importância dos espaços para o desenrolar de uma narrativa. Cada capítulo de “Como água para chocolate” inicia com uma receita típica mexicana, fazendo logo despertar o nosso palato. A cozinha é o cerne da ação.

Da Anita Shreve saliento “O testemunho” onde percebemos como os erros da adolescência podem condicionar a nossa vida adulta.

Gosto também, ainda que para momentos mais leves, dos escritos de Sveva Casati Modignani e dela destaco o primeiro que li, “Baunilha e chocolate“. Em todos os textos, histórias repletas de enredos femininos e envolventes.

O meu gosto por ler, e por estes autores, nasceu porque vivi sempre rodeada de livros. Aprendi o gosto das palavras e o gosto pelas palavras com as pequenas histórias infantis. Depois, conheci os livros da Alice Vieira, da Isabel Alçada e da Ana Maria Magalhães. A ternurenta coleção dos livros da Anita (ou não me chamasse eu Anita) e os misteriosos livros da coleção Patrícia. Entretanto, comecei a olhar para as estantes de livros que existiam em casa e deparei-me com livros que não tinham desenhos, nem eram coloridos, mas tinham uma riqueza de palavras que eu desejava conhecer. E foi assim, um de cada vez, um seguido de outro, às vezes quase a medo do que iria encontrar, se iria entender. Muitas vezes não percebi as criticas sociais que neles apareciam, nomeadamente nos textos do Eça. Todavia, a magia das palavras, o entusiasmo pelo desenrolar da trama, impulsionavam-me sempre a continuar. Veio então o tempo das leituras obrigatórias, primeiro para a escola e depois para a faculdade. E tudo o que é obrigatório torna-se pesado. Foi necessário contornar a questão e introduzir novos autores. Foi o tempo de conhecer o Hermann Hesse e o seu “Narciso e Goldmund” e o Umberto Eco com “O nome da Rosa“. Em simultâneo, juntei os trabalhos de Maria Filomena Mónica de quem destaco “Bilhete de Identidade” e a biografia de “Eça de Queirós“. O Eça novamente. O Eça sempre. E foi também pelo Eça que cheguei a Flaubert com a sua “Madame Bovary“, o romance dos romances, considerado o pioneiro entre os romances realistas. Os críticos da época nunca o perdoaram pela forma acutilante que tocou em temas como adultério ou como criticou o clero e a burguesia.

Chegara então o tempo de ler bibliografia da especialidade e a leitura prazerosa ficou um pouco aquém. Vencidos os anos académicos, regressei aos meus amigos de sempre. Reli os clássicos com outros olhos, outro conhecimento e formação e isso permitiu-me retirar deles outras emoções. Consoante os estados da Alma, vou-me entregando ao prazer da leitura procurando nos livros aquele aconchego que só as palavras me dão. Com cada um estabeleço uma relação tão íntima que, quando o termino, sinto dificuldade em prosseguir para outras leituras pois é como que se uma necessidade de saber o que vai acontecer a cada personagem daquela trama, se instalasse em mim. Muitas vezes experimento a sensação de ter saudades de determinado protagonista e, como tal, releio excertos que me devolvem, num ápice, o enredo geral. Tenho dias que me apetece ler muito. Outros em que prefiro esfolhear uma enciclopédia ou um livro de arte e ver com olhos de ver as imagens. Outros dias, abro, ao acaso, o meu velhinho dicionário de latim e descubro uma palavra nova e apreendo-a. Por exemplo, hoje descobri Medubriga, cidade da Lusitânia e que hoje é Portalegre!

Ler tornou-se assim um compromisso inadiável que, por um lado, muito me ajuda a acalmar o meu nervosismo que a vida acelerada de hoje provoca e, por outro, me ajuda à reflexão, a pensar os problemas que vão aparecendo e vê-los com outro olhar e, por último mas não menos importante, ler ajuda-me a saber escrever histórias catitas.

Espero que vocês também experienciem fortes emoções com os livros.

 

 

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