Pesquisas da Catita

Crónica I – Viagens na Minha Terra

Algo nos motivou para sair de casa e partir à aventura. Saímos. Fomos. Acabamos em Boticas.

Pertencente ao distrito de Vila Real, a vila de Boticas, com uma área de 350 Km2 aproximadamente, tem cerca de 6000 habitantes devotos de Nossa Senhora da Livração.

Visitar Boticas na Primavera é perceber, ou melhor, constatar como Deus estava inspirado no momento em que criou este pedacinho de terra. Uma variedade de verdes inebria o olhar. O vale, profundo e sinuoso quanto baste, é salpicado por rebanhos de ovelhas que, ao longe, parecem flocos de neve e, espantados, levantam os olhos ao nosso passar.

A variedade de verdes da paisagem é interrompida também pelos amarelos e lilases das urzes e giestas. Outras espécies herbáceas existem mas a minha ignorância relativamente à flora não me permite identifica-las.

Percorridos os caminhos serpenteando a encosta, chegamos a Boticas batiam as sete horas da tarde, no sino da torre da igreja. Não se avistava “viv’alma”. Só a passarada se ouvia.

Depois de devidamente instalados, procuramos um local para o repasto. Não foi preciso andar muito. Não porque existissem muitas opções gastronómicas mas porque ali tudo é “à mão de semear”! Comemos no Marialva, restaurante familiar muito simpático, a bela posta barrosã, tenra, macia e suculenta. Depois de um passeio “ao povo”, recolhemo-nos.

Sábado nasceu com um sol maravilhoso, dourado, um amanhecer quase perfeito não fosse o vento “dar um ar da sua graça” não tendo graça nenhuma.

Iniciamos a jornada com a visita ao Centro de Artes Nadir Afonso, local com uma exposição permanente do artista.

Nadir Afonso nasceu em Chaves nos idos de 1920 e partiu, para outra dimensão, em 2013, em Cascais. Arquiteto de formação, trabalhou com Le Corbusier e Oscar Niemeyer e estudou também pintura em Paris.

Nas instalações do Centro de Artes funciona o posto de turismo e, pela quantidade de frascos de mel expostos para venda, concluímos que este é um produto fundamental na economia local.

Partimos para Montalegre, simpática vila que faz fronteira com Espanha, que, apesar de ter uma área territorial maior que Boticas e também um maior número de habitantes, tem igual pacatez. Não fosse o caso de nesse dia o Sr. Primeiro Ministro aí estar com toda a sua comitiva, Montalegre seria um sossego absoluto.

A  980m acima do nível do mar, está o Castelo de Montalegre, constituído por 4 torres ligadas por muralhas, fechando a praça de armas. No centro desta, abre-se a cisterna. A norte está a torre de menagem com 27 cm de altura, de estilo gótico, coroada por balcões de matacães, mísulas e ameias pentagonais. Era defendido por duas linhas de muralhas das quais nada resta. A leste e a sul desenvolveu-se a vila medieval.

Almoçamos no Açougue do Castelo um belo bacalhau na brasa acompanhado com pimentos. Visitamos o Ecomuseu de Barroso e conversamos um pouco com um autóctone que nos explicou a importância das comemorações das sexta-feira 13 para a economia das gentes locais. Bruxas e mesinhas, poções e magias, gentes de todos os lados mais o Padre Fontes, invadem Montalegre e dão-lhe outra vida.

O vento acutilante fez-nos regressar a Boticas. Mais uns quilómetros a serpentear a serra, interrompidos por pequenos lugarejos com nomes interessantes dos quais destacamos a terra Gorda. Ao observar a placa que delimita o início da aldeia, perguntei-me como se chamariam os seus habitantes mas a dúvida não foi esclarecida pois não encontramos nenhum. Só rebanhos de ovelhas e cabras, jumentos solitários e vacas pachorrentas se avistavam nos campos do Barroso, nome tradicional da região formada pelos concelhos de Montalegre e Boticas.

A noite rematou-se com o visionamento do Eurofestival, a vitória de Israel e a bela classificação portuguesa. Achei curioso o facto de neste mesmo fim de semana, o jornal Expresso dedicar o tema da sua revista ao país vencedor do festival. Dá que pensar! Aliás, se juntarmos a isto o facto de ser dia de celebrações em Fátima e, também, se aguardar as decisões futebolísticas do 2º e 3º classificados, pode dizer-se que se “cumpriu Portugal” – Fátima, Futebol e Fado. É que o festival, não tendo fado como estilo musical, marcou o fado do nosso destino, últimos na tabela classificativa. Tudo como “d’antes”. Enfim… considerações apenas. Valem o que valem.

No domingo, rumamos a Chaves, a segunda maior cidade do distrito de Vila Real. A ocupação humana remonta à pré-história, como provam os inúmeros vestígios arqueológicos existentes. Na época romana, a terra desenvolve-se grandemente. Para defesa do aglomerado populacional foram erguidas muralhas e para a travessia do rio construíram a Ponte de Trajano. Foram também os romanos que implantaram o sistema das termas, exploraram os minérios e outros recursos naturais. A terra ganhou tamanha importância  que foi elevada à categoria de município no ano de 79 d.C. quando dominava Tito flávio Vespasiano. Daqui advém o nome de Aquae Flaviae. O auge do domínio romano verificou-se até ao seculo III, sendo depois interrompido pelos bárbaros primeiro e os muçulmanos depois. A cidade começou a ser reconquistada aos mouros no século IX, por D. Afonso, rei de Leão, mas foi só no século XI, que Afonso III a resgatou, mandou reconstruir e povoar. A sua localização geográfica de fronteira, determinou a necessidade de construção do castelo. D. Dinis determinou a sua construção assim como as muralhas que estão bem visíveis na paisagem envolvente.

Atualmente, funciona no castelo o Museu Militar que podemos visitar. Uma breve lição de História mas que podia (e devia) ser melhorado.

Não saímos da cidade sem provar o delicioso pastel de Chaves, folhado e estaladiço. Posto isto, barriga reconfortada e alma cheia, estava chegado o momento de regressar à nossa Princesa do Lima, à beira mar plantada. Por muito que viaje, voltar a casa é sempre muito bom!

Até breve!

 

 

 

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