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Ufa! Que sonho pesadelo!!!

Esta noite tive um sonho muito estranho que mais pareceu um pesadelo!

Sonhei que na minha escola, local onde sou imensamente feliz, eu só podia brincar com as meninas porque os meninos estavam noutro espaço do edifício e nós nunca estávamos juntos.

Sonhei que estávamos todos sentados nos nossos lugares, muito alinhadinhos, e que, quando a professora entrou na sala, a saudamos muito simpaticamente.

Sonhei também que tínhamos muito respeito para com uma fotografia de um sisudo senhor que estava afixada na parte central da parede da sala, por cima do quadro negro. O senhor Salazar. Bem perto estava também um crucifixo com a imagem de Cristo e, se ali estava, nós devíamos respeitar. Mas, uma coisa é certa, este Jesus não era nada parecido com o Jesus amigo que a avó Mimi tanto me fala.

Sonhei também que depois de corrigirmos os trabalhos de casa, a professora iniciou a lição do dia, falando das regras e princípios que todos deviam de obedecer para sermos bons cidadãos, cumpridores dos ideais que o governo defendia e que Salazar tão bem liderava. Neste sonho, a professora até lhe chamou o chefe de Nação. A lição continuou com a nossa Mestra a falar das figuras importantes da nossa História. E ela falava deles como se fossem heróis de séries televisivas dos dias de hoje.

Neste meu sonho, a minha sala de aula , que é alegre e colorida, cheia de vida e cor, era feia. cinzenta e com cheiro a bolor! Sinceramente, não acho piada nenhuma a esta sala de aula. Ainda bem que era só no sonho. Melhor dizendo, pesadelo. E o pior é que ainda não acaba por aqui.

Eu sonhei também que no fim das aulas, regressei a casa com uma lista de trabalhos para fazer bem grande. Na minha casa estava a minha mãe, cheia de trabalho nas lides domésticas, e o meu pai, que também regressava de um dia de trabalho árduo. Neste sonho, eu era muito obediente e até tinha algum medo do meu pai pois ele era um bocadinho sério de mais. Era o chefe da família e a família era a célula base da Nação, como dizia sempre a senhora professora. Bem… eu sou boa menina mas às vezes refilona… Se calhar, a mamã gostava mais que eu fosse como a menina do sonho. Será? Bem. Adiante. O meu sonho continuou. Ufa! Foi uma noite e tanto!

Bem, a minha casa, quer dizer a minha cama do meu sonho, não tinha nem televisão nem telefone e muito menos internet. Mas conversávamos muito ao serão. Nesse dia, quer dizer neste sonho, reparei que os papás falavam baixinho, quase que segredavam, e eu não entendia o que diziam e, quando perguntei, o papá respondeu logo: Não são assuntos do teu interesse. Claro que ainda fiquei mais curiosa. Aliás, eu sou muito curiosa. Nisso, o sonho estava correto. Bem, esforcei-me tanto mas tanto e lá consegui perceber a conversa. Parece que o avô Nogueira tinha desaparecido misteriosamente porque, assim diziam os meus pais, falava demais sobre política. E, por isso, uns senhores levaram o avô e nunca mais o iriamos ver. Esses senhores chamavam-se os pevides. Não. Os pides. Nessa mesma conversa, o papá disse à mamã que um amigo dele, o Chico, tinha sido levado para uma prisão muito muito longe daqui e também dele não teríamos mais notícias. Foi levado para uma terra distante… o Bombarral. Não. Tarrafal, era isso! Nessa mesma conversa, eu ouvi ainda o papá dizer que os senhores jornalistas escreviam notícias novas mas que a censura as riscava com um lápis azul. Oh! Não percebo o problema. A minha professora corrige os trabalhos todos com caneta vermelha. E eu gosto muito mais da cor azul. Mas parece que aquilo do lápis não era muito bom. Mas não percebi bem. O certo é que o papá também dizia que assim ninguém sabia o que se passava no nosso país. Mas, nessa conversa, o que me chamou a atenção foi a tristeza na cara da mamã. Só então consegui perceber que o meu tio Jorge tinha sido chamado para ir para a guerra. Em Moçambique. E a mamã tinha medo que ele não voltasse mais. Parece que essa guerra era porque o senhor Salazar não queria que as pessoas de lá fossem livres. Ora essa!!!! Mas que aborrecido era esse senhor. E parece também que ele só deixava que as pessoas gostassem de um partido político, a União Nacional. Que coisa! Então as pessoas não tinham direito de escolher em quem votar!?

Entretanto, no meu sonho pesadelo, já estávamos na missa de domingo e o senhor padre dizia que devíamos estar todos felizes por vivermos tão bem neste belo país, governados pelo senhor Salazar, o Salvador da Pátria. E o senhor padre dizia também que ele só queria o bem da Nação portuguesa e dos portugueses e, por isso, era muito importante que os trabalhadores estivessem nas associações que ele criou. Associações não. Corporações! Parece que havia várias corporações para que todos se entendessem, os que trabalhavam e os que mandavam. Ah! Mas parece que ninguém podia reclamar muito. Eram os grémios, as casas do povo e dos pescadores. O senhor padre falava e toda a gente ouvia com muita atenção. Que sonho esquisito… Até que tocaram as doze badaladas no sino da Igreja e… acordei! Afinal, era o despertador que tocava anunciando a bela manhã de 25 de Abril. E ainda bem porque eu não estava a gostar nada nada do que estava a sonhar.

O avô Manel conta-me tantas histórias do seu tempo de menino que eu até sonho com elas. Ufa! Que susto!!!! Eu já sou filha da LIBERDADE. E hoje festejo este dia e agradeço a todos aqueles que lutaram para que o meu país fosse um país democrático. Graças a eles, eu hoje posso contar o meu sonho e escrever as minhas histórias sem medo.

Como diz o avô Manel: 25 de Abril sempre. Fascismo nunca mais.

PS: Já viram como o meu amigo Salgueiro Maia é bonito e valente!?

 

 

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