Diario

A minha avó da farinha

Todas as sextas feiras, pelas seis da tarde, o sr. º Aníbal caixeiro chegava com o seu grande camião para fazer a entrega de inúmeros sacos de milho para a moagem da minha avó da farinha.

A avó Custódia era uma mulher de “pelo na benta”, baixa, de nariz empertigado, cuidava de uma família numerosa, que incluía marido, 4 filhos, uma mãe acamada, mais uma casa grande com quintal e galináceos e ainda uma moagem. À medida que os filhos foram tendo filhos, a avó Custódia cuidava dos netos também. Eu fui a última a ter a sorte de ser criada pela avó.

Na engrenagem diária, a avó Custódia organizava tudo e bastava um olhar dela para todos nós “entrarmos em sentido”. Pequenos e crescidos, posso garantir!!! A vida naqueles tempos era assim, não havia tempo para resmunguices.

Além das funções inerentes à sua condição de mulher, mãe e esposa, a avó tinha uma moagem, no rés do chão da casa. Um moinho movido a energia elétrica, moía quantidades consideráveis de cereal, abastecendo a aldeia, nomeadamente a padaria que funcionava mesmo em frente. Por isso, a avó Custódia era a avó da farinha. A D. Margarida, proprietária da padaria, era a avó do pão.

Aos meus olhos de menina, na moagem da avó acontecia magia: os grãos transformavam-se num pozinho branco e suave, numa farinha fofinha à qual, eu sabia, depois se lhe juntava fermento e sal, e nova magia acontecia, o pão!

Na moagem havia um enorme balcão com uma balança igualmente imponente e uma coleção de pesos para diferentes “medidas”. Um armário grande com umas portinholas onde se colocavam os diferentes tipos de cereais já triturados. Uma masseira antiga que não tinha o uso para que foi concebida, mas onde se guardavam “coisas que não me diziam respeito”, assim me diziam. Num cantinho, um caixote de madeira foi acolhendo, cada um à sua vez, os netos que a avó criou.

De quando em vez, o Avô Manel tinha de “picar as pedras do moinho”. Não entendia muito bem o que isso era, mas com o tempo, fui percebendo que isso era fundamental para que o moinho cumprisse a sua função.

Nesta labuta diária, a avó cantarolava uma cantilena engraçada que, muitos anos mais tarde, ensinou às minhas filhas:

Assim se amassa

Assim se peneira

Assim se dá volta

Ao pão na masseira.

Recordo com saudade a moagem e a magia que lá acontecia. Aliás, recordo com imensa saudade a avó da farinha que, não sendo uma mulher de grandes afetos, tal como hoje vemos nas mães e avós, sabia ser doce à sua maneira e ao seu jeito.

A avó da farinha partiu a 19 de setembro de 2014, doze anos depois do avô Manel. Até ao fim, manteve a sua “autoridade”. Até ao último sopro de vida foi a nossa avó da farinha.

Até um dia Avó!

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