Diario

Preocupa-me…

Gosto de estar na varanda da minha casa. A olhar. A ver. E preocupa-me o que vejo. Vejo muita solidão. Melancolia. Talvez uma certa amargura. Vejo gente cansada de uma vida atarefada, rodeados de muitos mas todos tão sós… Quase todos os que vejo trazem, presos às mãos, um sofisticado aparelho de comunicação que os conecta com muita gente. Quase todos vão a escrever mensagens ou a atender alguém. Mas… os seus olhos falam. Falam e mostram a solidão em que vivem. Será que este tempo de tantas possibilidades e de tantas formas de comunicação, nos torna mais solitários, rodeados de muitos mas sempre tão sós!?

Os meus pensamentos são interrompidos e sei que são 10.30h porque a Dona Teresa chega, no seu andar calmo de octogenária, acompanhada pela cadela Ursa, também ela menina de muitos anos! Vem com o carrinho de compras à mercearia Piedade. Ao passar por mim diz “Bom dia menina”. Não tem telemóvel. E fala comigo. Todos os dias. No regresso diz sempre “Até amanhã menina”.

A manhã prossegue. Sei que são 11h agora porque o senhor Guedes, utente do Lar da Piedade e portador de deficiência física que o prende à cadeira de rodas, sai veloz para o seu passeio matinal e diz “Bom dia, está tudo bem?”. Regressa infalivelmente ao meio-dia e pede-me que toque à campainha da porta, para poder entrar na sua casa de acolhimento e diz “Obrigado menina, estou sempre a aborrecer”. O senhor Guedes também não tem telemóvel e fala sempre comigo.

Todas as manhãs este cenário se repete. Todas. Confesso que, quando não os vejo, fico preocupada e tento averiguar se está tudo bem.

Da parte da tarde, mais pessoas circulam na rua. Mas, salvo raras exceções, não dizem boa tarde mas todas estão com os tais aparelhos de comunicação nas mãos, sempre com disponibilidade para quem estiver do outro lado da “linha”. Será que falar, olhos os olhos, dizer boa tarde ou bom dia, olá e até manhã, passou de moda e eu não sabia??? Mas eu gosto de dizer. E bem alto! Para que se ouça muito bem! Para que faça efeito, para que se quebre o gelo e a solidão. Para que adoce o coração e limpe a amargura. Sabem!? porque eu acredito que AMAR CURA!

 

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