Diario

Darque dos meus olhos de menina…

Eu corro atrás da memória

De certas coisas passadas.

Como de um conto de fadas,

De uma velha, velha história.

(Francisco Bugalho in canções de entre céu e terra)

 

As imagens mais bonitas, das memórias da minha infância, são as do jardim da casa da minha avó Custódia, sempre repleto de flores com o romper da Primavera. Abrir a janela do meu quarto e ver aquele jardim florido, cheio de árvores frondosas, onde moravam mil passarinhos. Ouvir o cacarejar das galinhas na capoeira. Sentir o cheiro da terra molhada após a rega matinal que o meu avô Manel fazia, levava-me para um mundo encantado, como um conto de fadas.

De hora a hora, o relógio da torre da Igreja marcava o tempo e, nessa época, o tempo passava tão devagar…

Do lado de lá do quintal, para lá da linha do caminho de ferro, estava o quintal da casa “velha” do sr. Padre. Volta e meia, eu via a tia Rosa “lambiqueira” que cuidava da horta. De quando em vez, passava o comboio, majestoso aos meus olhos de menina.

Da parte da frente da casa da minha avó, estava a turbulenta estrada, cheia de perigos. Ainda que os carros fossem em menor número, comparativamente aos dias que correm, para mim eram assustadores. E eu sabia, pelas conversas que ouvia dos adultos, que aquela estrada tinha “levado” muita gente, vítimas de atropelamento e descuido. Anos mais tarde, apareceram as passadeiras e os semáforos, numa tentativa de amenizar esta situação.

Em frente estava o supermercado da Guida e do Sr. Adriano, moderno à época, onde se podia encontrar uma variedade considerável dos produtos e bens necessários ao dia-a-dia. Também era aqui que, no Natal, o velhinho de barbas brancas fazia as suas compras. Subindo a rua e na sequência das casas, estava a casa da avó do pão que eu sabia que, em tempos, tinha sido uma padaria. Depois, a casa do Sr. Domingos e da D. Odete, o local mágico onde, de pedacinhos de madeira, apareciam lindos carros de bois, moinhos, barcos, colheres de pau, uma variedade de artefactos que eram finalizados no sótão da casa, local a que eu tinha acesso privilegiado e onde passei muitas e muitas tardes. Aparecia depois a tasca da tia Lurdes “taipeira” e do sr. José, onde eu, sorrateiramente, ia comprar pão com dois quadradinhos de chocolate Avianense, um pequeno luxo! O que mais gostava era de ver a “exposição” desta delícia, numa travessa branca, dentro do pequeno armário de vidro, em cima do balcão da tasca. Anos depois, a Rosa passou a fazer parte deste cenário, trabalhando com uma máquina muito estranha a consertar o calçado. A Rosa “sapatola”. Seguindo a minha viagem, tenho memória de, na casa do Sr. Alípio, ter havido uma loja de pratas e relógios do filho do Sr. da farmácia; houve também uma cabeleireira, a Aida; o pronto a vestir da Amália e, anos depois, a loja da Custódia. Lembro-me também de ouvir dizer que a D. Milú teve ali um comércio, mas confesso que não recordo tão bem desse espaço. Depois, havia o talho da Sãozinha e, em frente, do outro lado da estrada, o café Bar. À frente um bocadinho, a farmácia.

Voltando para trás, no sentido da cidade, recordo uma drogaria, que penso que era do Sr. Queirós, na casa do Sr. Tinoco. Uma casa fascinante para mim naquela altura pois tinha à frente um jardim e uma arquitetura diferente. Recordo o café Pingo e logo ao lado, o pronto a vestir do Sr. Paulino. Aparecia depois a casa oficial do Sr. Padre e chegava então à casa da minha avó onde, em baixo e na loja do meio, ficava a loja da Teresa “regalada” e onde vivi das melhores recordações de menina, principalmente na época de Natal em que eu era responsável por fazer os embrulhos dos presentes. Um cargo de muita responsabilidade!!!

Aos meus olhos de menina, o mundo ficava ali na estrada, onde tudo acontecia. Ou pelo menos, grande parte. É que volta e meia, eu ia para a casa da avó Lucília e do avô Pinto Novo, nas Bouças e, aí, eu completava a minha esfera de amigos. Os carros de bois circulavam regularmente pelas ruas, ajudando os seus donos na labuta diária do campo, como era o caso da tia Dores e do tio Nicolau. Da padaria da tia Micas “polónia”, a minha avó Lucília trazia-me um croissant embrulhado em papel costaneira. Aquele croissant tinha um sabor!!! E um cheirinho!!! Nunca mais senti igual… Em frente à padaria, o meu avô e o meu pai trabalhavam em mármores e faziam sepulturas. Deviam fazer outras coisas mais agradáveis, mas era assim que eu os via. Mais à frente, numa casinha muito pequenina, morava a Sr.ª Pombinha, uma velhinha, muito velhinha com quem eu adorava estar mas de quem eu nunca soube o nome próprio. Era a Pombinha. Talvez pelo seu ar frágil e pequenino… Não sei bem… Passava também longas horas na casa da tia Micas. E na cozinha da casa, havia um armário, por baixo do lava louça, cheio de panelas que eu tirava umas quinhentas mil vezes ao dia, para arrumar ao meu jeito. Não porque fosse preciso mas porque eu era a menina daquele reino. Creio que o Fernando e o Zé Lima ainda se lembram disto. Havia ainda a Rosinha costureira, a Tina, a Zira, a Luzia. Todos povoam as minhas memórias de infância. Todos fazem parte do meu mundo.

Da estrada, onde ficava a casa da avó da farinha, até às Bouças, à casa da avó Lucília, era um percurso muito, muito grande aos olhos da menina de tranças. Igualmente grande era a distância da casa da avó da farinha à escola primária, com paragem obrigatória na montra da Papilar da D. Ana Maria, para ver as últimas novidades em materiais escolares.

A escola primária, que saudades. Que bom era aquele leite com chocolate, bebido pela caneca de plástico, aquecido previamente em grandes panelas pelas meigas mãos da D. Lulu. Tenho memória de nos oferecerem uma bola de Berlim no dia da criança.

Outro espaço marcante da minha infância era o parque do Sr. da Saúde, com baloiços, onde, nas noites quentes de Verão, era possível brincar.

As minhas memórias percorrem agora, passados tantos anos, estes espaços e sinto-me novamente criança.

Momento importante da terra eram as festas do Sr. da Saúde, com cortejo no sábado e procissão no domingo. A D. Odete organizava um grande grupo de crianças, trajadas a rigor para o desfile do cortejo etnográfico. A Dorzinhas “santeira” vestia-nos para a procissão. Nesses dias, o Sr. Retratista, como o nome indica, tirava-nos a fotografia da praxe. Eu acho também que era ele que arranjava guarda-chuvas. Tenho essa memória. Será que é verdadeira ou seria outro senhor?

No Verão, o rio era a nossa praia e, à ida, um gelado comprado no café do Piletras. Memória igualmente deliciosa é a que tenho das Janeiras do Zé “fivelas”, com estrofes que eu nada entendia, mas que me faziam rir, e as conversas meio doidas do “água d’unto”, um sr. que eu não recordo o nome…

O meu mundo estava povoado de todas estas pessoas. E de outras que não recordo agora pois a memória já me falha, às vezes.

O meu mundo era a minha aldeia. O meu mundo ficava entre a Estrada e as Bouças, entre a Estrada e a Escola e, claro está não posso esquecer, entre a Estrada e o Souto. Aos domingos à tarde, íamos passear de carro, no Sinca, ouvindo o relato do futebol e as conversas dos adultos, eu ansiava já a chegada da noite, para ir jantar à casa da Salete, amiga de longa data da família, que morava (e mora) para os lados do Souto, na Rua Sebastião Pires Barbosa, onde eu era também ali, a menina da casa, com privilégios consideráveis.

Assim são as memórias mais antigas da minha terra. Cresci. A vida levou-me para outros lugares mas todos os momentos determinantes da minha vida, estão aqui em Darque. Aqui casei e aqui batizei os meus três filhos. Aqui repousam os meus avós e aqui espero eu um dia regressar, para descansar, do outro lado do Caminho.

Que este meu registo sirva para avivar outras memórias e que sirva também para mostrar um bocadinho de Darque de outros tempos. E constatarmos as diferenças que são muitas!!!

O Darque dos meus olhos de menina de seis anos.

O Darque da Anita, neta da Custodinha e do Pinto Novo, o sócio.

8 thoughts on “Darque dos meus olhos de menina…

  1. Ana, minha querida amiga Ana!
    Tu és uma força da Natureza! Eu só posso dar-te os meus mais sinceros parabéns!
    Mas dar-te só os parabéns, é muito pouco, pois tu mereces mais, muito mais.
    Assim sendo e a par dos meus parabéns, quero desejar-te toda a felicidade do mundo!
    Recordar assim a “nossa Terra” é fascinante!
    Muito obrigada Ana Caramez por o fazeres de uma maneira tão simples e tão bela!
    Para ti, minha boa amiga eu só posso dizer palavras belas e muito bonitas, e do fundo do meu coração desejar-te tudo de muito bom e belo da vida!
    Muito obrigada!
    Um abraço grande e amigo!
    ADORO!

  2. Olá Anita , que deliciosa viagem me levaste a fazer! Eu também sou Darquense e do tempo dessas memórias que me são tão queridas 🙂 ! Os teus avós das Bouças eram Padrinhos da minha irmã Lucilia,que faleceu com 11 anos.
    Obrigada pela partilha !

  3. Adorei, Ana.
    Fez-me também reviver o passado, tempos e pessoas que conheci quando casei e fui morar para a estrada…para mim um tempo bom, mas de difícil adaptação, pois não conhecia ninguém. A minha loja ajudou no conhecimento do meio e das pessoas.
    Bons tempos. Passaram trinta e nove anos.

  4. Obrigado Anita por me fazeres recordar tempos maravilhosos da nossa infância nos quais também me revi e tive o prazer de fazer parte de muitos deles. Aliás acredito que façam parte da memória dos tempos de criança de muitos dos nossos amigos, os da nossa geração. Beijinhos. Sandra Neta da tia Micas “polónia” da Padaria

  5. Susana adorei a tua estória o que me levou a recordar o tempo em que vivi em frente há capela dos padres no cais novo na estrada nacional da época. Todos esses nomes me reavivaram a memória que saudade desse tempo. Beijinhos

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